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5 de mar de 2015

A MOTIVAÇÃO NA VIDA DO ESCRITOR



Acompanhando os posts de aspirantes a escritores nas redes sociais, percebo que uma das maiores angústias dos escritores é justamente a procrastinação com o ato da escrita. Num mundo como o nosso, onde a maioria das pessoas vive de torpedos e twitts de 140 caracteres, pensar em dedicar longas semanas a um único manuscrito pode soar como uma atividade extenuante e aborrecida, cuja execução vai proporcionar longos períodos longe de outras coisas que o autor poderia fazer, pensamento que é outro motivo de angústia: o da culpa por não se dedicar o suficiente a sua obra.




Na verdade, tudo é uma questão de motivação. É simples colocar assim, mas não é simples explicar como uma pessoa pode se motivar a fazer algo. Por isso achei por bem que deveria partilhar um pequeno resumo sobre o que sei do assunto, que foi parte dos estudos da matéria “Psicologia da Educação”, que estudei no curso de Licenciatura da faculdade Claretianas.

O curso era voltado a professores, que precisam motivar seus alunos a estudar e a aprender coisas que, a princípio, parecem não servir pra nada. Porém, entender os mecanismos da mente humana pode ser determinante na hora de estabelecer prioridades na sua vida e decidir se escrever é mesmo o que lhe trará felicidade. Vamos ao assunto?

Existem dois tipos de fatores que levam uma pessoa a determinados comportamentos: a motivação extrínseca e a intrínseca.

Como você deve imaginar, a motivação extrínseca é aquela que vem de fora e que age sobre o indivíduo. Elas incluem recompensas, ganhos financeiros, pressão social, punição, prestígio, ascensão social e outros. São as coisas que você pode ganhar ou perder ao fazer ou não o que deve fazer (uma criança pode fazer o dever porque, se não o fizer, vai apanhar da mãe), que levam o indivíduo à realização.

Talvez para alguém que já seja famoso tornar-se escritor pode ter motivação extrínseca. No meio artístico, por exemplo, um ator que também escreve é visto como um intelectual, e o livro escrito por ele agrega conteúdo ao seu currículo profissional e possibilita que ele alcance novos projetos em sua carreira. Em outro exemplo, um ator que já tem uma fama consolidada pode pensar que dedicar-se a um roteiro de filme (acredite, é tão ou mais complicado que escrever um livro), pode levá-lo a um novo patamar na carreira, a novos desafios, e valorizá-lo ainda mais por sua própria profissão. Ou, ilustrando casos mais comuns, um aluno pode se sentir extrinsecamente motivado a escrever uma monografia de 150 páginas quando ela será necessária para concluir sua graduação de 5 anos, por exemplo.

Para um indie, como eu, a motivação extrínseca não pode ser predominante. Normalmente, todo profissional fantasia ter sucesso na carreira. Como independente, não posso deixar de admitir que me pego imaginando como seria se eu pudesse me dedicar dia e noite apenas aos meus livros, viajar o mundo dando palestras e lançando novos Best Sellers, e descobrir que não há uma livraria do mundo sem um exemplar dos meus textos. Mas esse tipo de pensamento não deve e não pode nortear a carreira de um escritor iniciante, pois muito provavelmente não é assim que as coisas vão acontecer. Mesmo quando acontecem com pessoas comuns, como foi o caso da famosíssima J.K.Rowling, existiu muita dedicação anterior e várias portas na cara, e se concentrar apenas na glória final leva, invariavelmente, à decepção. Sonhos são importantes, mas os caminhos até a conquista deles são mais importantes ainda.

E isso nos leva ao segundo tipo de motivação: as motivações intrínsecas

"Quando estamos intrinsecamente motivados, não necessitamos de incentivos ou punições, pois a atividade em si é recompensadora" (WOOLFOLK, 2000, p. 327). É o tipo de comportamento que vem do interesse e da curiosidade. Ela não depende de receber algo em troca do que se faz, nem de ser reconhecido pelo que se faz, e normalmente é um sentimento persistente, que não esvanece com a conquista de uma recompensa, nem com a ausência dela. 

E é nesse sentimento interior que o escritor deve criar para desenvolver seu texto. Ver materializada uma história que tem em mente, livrar-se do peso de carregar as vidas imaginárias de personagens que povoam o imaginário do autor, ter histórias próprias para ler para os seus filhos antes de dormir ou registrar uma experiência que você não quer esquecer jamais, são exemplos de motivação intrínseca.

Concentrar-se em um tipo de motivação não quer dizer que você não possa pensar no outro tipo. Se for possível desenvolver e receber os dois tipos de motivação, tanto melhor para seu crescimento profissional e para a conclusão dos seus textos. O autor pode, por exemplo, se sentir orgulhoso por ver seu nome estampado na capa de um livro, gostar de receber elogios e ter uma “injeção de ânimo” ao testemunhar as vendas acontecerem numa sessão de autógrafos, desde que isso apenas complemente a vontade interior que ele tem de se expressar, de concluir sua obra por razões internas. 

Uma dica para impulsionar a motivação na parte mecânica da coisa, a digitação:

Estabeleça uma meta de digitação diária, mas não preencha todos os dias da semana com esse cronograma. Você verá que na primeira e na segunda semana precisará de perseverança e paciência, mas se sua proposta pessoa for escrever 5 páginas por dia, ao final de duas semanas terá 50 páginas, e isso é quase a metade do que têm a maioria dos livros independentes que tenho lido. Não se proponha, no entanto, a escrever 20 páginas por dia, pois além de arrebentar com seus tendões e precisar de vários dias pra se recompor, esgotar sal determinação num dia só pode fazer o efeito contrário ao esperado, e desanimá-lo mais que animá-lo.

E principalmente: divirta-se com o que escreve. Se sua história não está cativando nem mesmo você mais, então é hora de reformulá-la ou partir para projetos mais interessantes. Livro são aventuras para quem lê, mas pra quem escreve pode ser a jornada de sua vida, então que seja uma jornada prazerosa.

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Um comentário:

  1. Estabelecer metas factíveis ajuda bastante. Nada é mais frustrante que não conseguir cumprir o que se propõe, não é? Por outro lado, a motivação principal, para mim, vem do prazer em narrar uma boa história.

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