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5 de mar de 2015

Vida - Resenha



Vida – Leandro Soriano Marcolino
Sinopse
Imagine um mundo onde a biotecnologia está em seu ápice. Onde é comum ter robôs que se assemelham a seres biológicos, substituindo os cachorros como animais preferidos de estimação. Recriar membros amputados é algo simples, e feito com tal perfeição que se torna difícil diferenciar a prótese do membro original. Neste mundo de infinitas possibilidades, Luíza sofre um acidente de carro com seu marido, Rodrigo. Ele entra em coma. Luíza deve aceitar a perda do marido?



Luíza e Rodrigo saem de uma festa de madrugada e, quando o marido alcoolizado pergunta se a esposa poderia dirigir ela se recusa, alegando que não dirige bem à noite. Na estrada, sofrem um acidente de carro e, ao despertar, Luíza se vê num hospital prestes a fazer uma cirurgia para a amputação de uma perna com seu marido em coma. A partir daí acompanhamos o triste desenrolar do dia-a-dia da esposa submissa que se vê, de repente, sem seu ponto de referência, o marido, obrigada a acompanhar o sono constante do esposo. No início ainda há esperança para Rodrigo, mas quando fica claro que o estado de saúde dele não vai melhorar e que, se ele voltar do coma, terá sequelas para sempre, o médico responsável dá à Luíza uma decisão: deixar seu marido definhar e morrer, ou autorizar a eutanásia para que ele possa fazer um transplante do órgão doente por outro construído artificialmente: o cérebro.

Acompanhamos, então, Luíza e seu dilema para decidir se deve ou não autorizar que seu marido tenha o cérebro substituído por um artificial, enquanto tenta entender se o que voltaria seria o mesmo homem que ela conheceu, ou apenas uma réplica. 

Há todo o drama envolvendo o coma de Rodrigo, e o leitor pode acompanhar o desenvolvimento de Luíza, recuperando-se aos poucos e voltando à vida como uma náufraga. Existe um conflito entre Luíza e os pais de Rodrigo, pois estes querem que ela autorize o procedimento o mais rápido possível, enquanto ela está insegura e quer pensar com cuidado antes de tomar qualquer decisão. Um ponto interessante foi a inserção de Frank, o cão artificial de Luíza com seu comportamento quase natural, mas ainda assim artificial. O animal-robô torna-se um paralelo de comparação para Luíza se decidir em relação a seu marido.

O enredo é promissor e a ideia realmente faz o leitor refletir sobre os limites da aplicação da tecnologia na vida humana, e no que um ser humano pode se tornar, caso use a tecnologia indiscriminadamente. No entanto, a narrativa é um tanto prolixa e cansativa. Por várias vezes o autor faz uma pausa para fazer uma reflexão pessoal sobre dramas existenciais. Li na introdução de “Sombras da Noite” (infelizmente não me lembro do nome de quem a escreveu), que o que o bom livro faz de melhor é levar o leitor para dentro da história como se estivesse viajando junto com os personagens, de modo que ele se esqueça de que está apenas lendo um livro. Essas exaustivas pausas reflexivas fazem justamente o contrário, lembrando ao leitor, o tempo todo, de que ele está apenas lendo uma história. Aliás, exatamente na metade do livro, e duas vezes depois disso, o autor chega a introduzir expressões como “… não é a primeira vez que aparece neste livro”, ou “mais uma vez neste livro”. Foi bom ter aparecido apenas no meio do livro da primeira vez, pois senão teria abandonado o livro logo no início, pois as expressões em questão fazem com que todo o drama se perca para dar lugar a algo mais parecido com um livro de autoajuda ou de autoconhecimento. 

O autor optou por explorar quase que absolutamente o dilema emocional de Luíza e, embora exista claramente um mundo de inovações tecnológicas ao redor, estas ficaram limitadas ao cérebro artificial, à perna quase natural que Luíza recebe e aos robôs, presentes em toda parte. A introdução dos robôs na sociedade poderia ter sido mais bem trabalhada, assim como as implicações de ter um marido com um cérebro artificial e as discussões sobre o procedimento com os pais de Rodrigo.
Tem um português impecável e um argumento muito interessante, e tenho certeza de que outras pessoas possuem opiniões diferentes, mas não me cativou.

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