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11 de mai. de 2015

FUI UMA BOA MENINA? - RESENHA

Fui uma boa menina? – Carolina Munhóz
Sinopse
Nestas páginas de diário, uma adolescente fora do comum escreve sobre seus dramas e conflitos familiares ao mesmo tempo corriqueiros e excepcionais, em uma narrativa envolvente, cheia de suspense e, claro, com o toque de fantasia característico de Carolina Munhóz, que vem conquistando jovens leitores por todo o Brasil.
Fui uma boa menina?, conto de estreia da autora na editora Rocco, é um presente de Natal para todos os fãs.




Considerações
Neste pequeno conto, Carolina Munhóz consegue envolver o leitor desde as primeiras linhas. Entramos no diário de uma adolescente, nas páginas de uma data especial, quando ela fala de um trauma passado justamente daquela data, um ano antes. Descobrimos que ela guarda rancor do pai, e que o culpa por algo terrível que aconteceu com sua mãe. Mas, quando as páginas do diário terminam somos levados ao presente da jovem, e descobrimos a fantástica verdade sobre o pai dela, e como aquela data pode ter para ela um significado muito especial.

Uma linda história de Natal, digna de ser lida em voz alta em família. E está disponível para download gratuito na Amazon já faz um tempinho, então vale a pena correr para adquirir o seu!

4 de mai. de 2015

TÚNEIS - RESENHA

Túneis - Will é um garoto de 14 anos cuja única afinidade com seu excêntrico pai é a paixão pela arqueologia. Ele passa a maior parte do seu tempo livre cavando buracos nos arredores do terreno de sua casa para realizar descobertas científicas, fugir da pressão da escola e da mesmice da família. Um dia, seu pai desaparece misteriosamente por um túnel que Will não conhecia, e o garoto começa a cavar, literalmente, a verdade por trás do sumiço do pai.



Considerações

Encontrei este livro na biblioteca da minha cidade, da qual sou frequentadora regular, e decidi levá-lo por alguns motivos: primeiro, por que a capa é linda; segundo por que confundi com o livro “Buracos”, história que eu conhecia pela adaptação para o cinema. Confesso que me decepcionei quando percebi meu equívoco, mas depois de ler as primeiras páginas essa decepção foi toda embora.

Túneis prende o leitor desde a primeira página, onde acompanhamos Will e seu pai numa descoberta arqueológica no meio de uma escavação amadora, e fiquei grata por nunca ter ouvido falar desta história antes, pois eu gosto de ter boas surpresas ao pegar um livro desconhecido, não saber mais que a sinopse (neste caso, nem a sinopse eu tinha lido), e me deslumbrar com uma história curiosa e fascinante que vai se revelando pouco a pouco, como é o que acontece neste livro.

Se a princípio imaginei que soubesse os caminhos que o livro iriam tomar, já que a trama gira em torno do peculiar interesse de pai e filho pelas escavações arqueológicas, a trama vai ficando cada vez mais intrigante à medida em que vai revelando aspectos da relação familiar entre Will, um adolescente albino, seu pai, sua mãe e sua irmã mais nova que, aparentemente, é o centro organizacional da casa toda. O clima da família chega a ser tão pesado quanto o que encontramos dentro dos túneis, já que simplesmente os quatro não têm nada em comum um com o outro. A mãe aparenta sofrer de alguma depressão severa que a mantém presa à poltrona da sala com um controle de televisão na mão constantemente, a irmã Rebeca sofre de TOC de forma aguda, o que acaba sendo bom, já que é ela que controla as finanças da casa, as compras da cozinha, a organização da roupa suja, tudo. O pai é excêntrico, tem um emprego normal como curador no museu local, mas gasta seu tempo livre em escavações secretas ou com o filho, temeroso de que outras pessoas roubem suas descobertas, e o filho, vítima de bullying a vida toda por ser albino, tem apenas um amigo, Chester, de quem se aproximou por que ele sofre de uma doença de pele e também é ridicularizado na escola.
Embora tenhamos um panorama da estranha vida de Will e de como ele convence o amigo a participar das escavações com ele (onde acham uma estranhíssima sala vedada, a qual até agora estou curiosa para entender direito), a história começa de verdade quando o pai de Will desaparece misteriosamente sem deixar pistas. A atmosfera que ronda o desaparecimento é tão inquietante quanto o restante do livro, já que a mãe de Will e Rebeca, assim como a polícia, parecem acreditar que o pai os abandonou, e, por sugestão de um psiquiatra (aparentemente) decide deixar os dois filhos sozinhos e se internar numa clínica.
Destinado a viver com uma tia distante, Will convence Chester a ajudá-lo a procurar pelo pai. As pistas que encontram em seu caderno de anotações os levam a uma escavação secreta, da qual nem Will sabia, e que parece ser um segredo que estranhos homens de sobretudo e chapéus estão dispostos a guardar, perseguindo os garotos pelas ruas da cidade sem nenhuma explicação. Finalmente Will descobre a entrada da escavação do pai, e, junto com Chester, os dois embarcam numa aventura muito maior do que esperariam encontrar.

Pois a escavação, na verdade, encontrou a entrada para uma civilização inteira subterrânea, localizada nas profundezas de Londres. Chester e Will são capturados por soldados e testados por uma estranha técnica de inquérito que lhes rouba todas as memórias. Ao final de um processo torturante e doloroso, Will é tirado do cárcere e separado de Chester, e descobre o motivo: na verdade, Will é filho de um cidadão da colônia, que tinha sido levado para a superfície pela mãe quando ela fugiu. E mais: ele ainda tem um irmão mais novo, Cal, e os homens da superfície que são levados para lá são transformados em escravos.

Will se mostra um bocado contraditório, uma vez que desce à Colônia à procura do pai, mas acaba descobrindo que precisa salvar o amigo de um destino terrível e, ao mesmo tempo não sabe se quer voltar à superfície ou se gostaria de viver mais um tempo com sua nova família. As dúvidas são resolvidas quando Will descobre que o destino de Chester é algo terrível, e ele decide armar um plano para fugir levando o amigo junto. É ajudado por seu tio subterrâneo, o único que parece entender o desejo de Will de sair dali, e acaba levando junto o irmão mais novo e um estranho gato gigante muito fiel.

A fuga é mal engendrada e Chester acaba recapturado pelos Styx, os mesmos encapuzados que os perseguiam na superfície, e que são um tipo de supersoldados. É neste momento também que Will descobre que Rebeca, sua irmã mais nova, na verdade não era o que parecia, e que o vigiou a vida toda, o que o faz questionar novamente sobre quem é sua família de verdade. A intenção dela e do resto dos Styx era descobrir onde se escondia a mãe de Will, mas isso não é revelado em nenhuma parte do livro. Will e Cal fogem e conseguem atravessar a Cidade Eterna, uma magnífica cidade de esmeraldas, porém contaminada com uma estranha doença. Will perde sua máscara e, quando chega à superfície, leva Cal à casa da tia, onde os dois se recuperam.

Mas a vida na superfície não é para Cal e seu gato, e Will precisa resgatar Chester e trazer seu pai de volta. Os irmãos descem novamente à Colônia e, mais uma vez ajudado por seu tio, passam pelos Styx e acabam se juntando finalmente a Chester num carro que ruma para as Profundezas, lugar que os colonos temem e que, possivelmente, guarda segredos ainda mais tenebrosos.

Conclusões...

O principal mérito do livro, a meu ver, foi transmitir uma sensação de claustrofobia tão intensa como a que o leitor comum teria ao adentrar cavernas e mais cavernas longe da luz do sol. Não apenas nas escavações, mas entre os personagens envolvidos há muita tensão. Entretanto, em alguns momentos as reações não são muito convincentes, como a mãe que permite que a filha de doze anos seja responsável pelas compras, roupas e contas da casa, embora o clima surreal talvez tenha sido exatamente o que os autores quiseram passar. É uma fantasia interessantíssima e diferente, que me lembrou de um livro de teoria de conspiração que prega que existe um reino subterrâneo sob nossos pés, “A Terra Oca”. Só achei que a quantidade de pontas soltas que o livro deixa é grande demais, e ao ver depois que “Túneis” é só o primeiro de seis livros, confesso que fiquei um tantinho desanimada (principalmente por não ter as continuações na biblioteca). Agora estou de olho nas continuações.


Pra quem gosta de fantasia e procura algo diferente do tradicional “herói – vilão – magia – dragão”, esta é uma ótima pedida, e que ainda por cima acrescenta alguns conhecimentos geológicos ao leitor!

28 de abr. de 2015

ROTEIRO



Já mencionei várias vezes que meu método de escrita hoje se baseia em algumas etapas, e que uma delas é o Roteiro. Várias pessoas já me perguntaram curiosas, o que seria esse bendito roteiro, e hoje decidi revelar este meu grande segredo de trabalho... Tcham, tcham, tcham, tcham...

Quem já viu algum roteiro de teatro ou está costumado com este tipo de linguagem sabe que, neste tipo de narrativa, existe uma série de itens para auxiliar os atores a se situarem na cena e a desenvolverem as falas da melhor maneira possível, de forma a transmitir a mensagem que o autor planeja. Tive pouco contado com peças de teatro, e as poucas que me passaram pelas mãos vieram por curiosidade ou quando estudava para alguma prova (sou formada em Design e em Artes, havia matérias muito curiosas em minhas grades curriculares).

Posso dizer que, embora esse tipo de roteiro tenha me dado uma boa base do que fazer, o roteiro que utilizo para escrever meus livros é bem diferente, e isso principalmente porque, para escrever um livro de 400 páginas, seria um bocado contraproducente escrever um roteiro de 200 páginas, não acham? 

O que eu utilizo é uma simples síntese das ideias principais do que quero escrever, marcando sempre as coisas mais importantes, que não podem ficar de lado. E tudo começa antes do roteiro propriamente dito, quando passo um bom tempo (o tempo necessário, podem ser dois dias, duas semanas ou dois meses), apenas ruminando a história no pensamento. 

Nesta etapa, o principal é conseguir “enxergar” as partes principais: o início (por que isso vai acontecer?), o fim (como será o clímax), e algumas partes do meio (que coisas vão acontecer até chegar lá?). Como já sei mais ou menos quantas páginas eu costumo gastar para descrever as cenas, marco neste roteiro, além do resumo, um número médio de páginas a usar, o que me ajuda a ter um norte e não me estender demais em alguma parte não tão importante, ou mesmo limitando o tamanho das minhas crianças, pensando numa eventual publicação.

Aqui está o roteiro do terceiro livro da série Mundo de Bhardo, O Reino Maldito, um dos que melhor funcionaram com o roteiro pré-delineado (se não quiser ver spoilers da trama, não leia!!! Apesar de que decifrar minha letra nos roteiros é complicado, porque eles saem tão rápido que nem ligo se está caligráfico ou garranchudo).










Escrevi tudo com caneta azul; os números em círculos vermelhos são a quantidade média de páginas que achei que o "episódio" teria, à medida em que ia avançando ia colocando OK em vermelho e grandes OK's em fluorescente quando a página toda estava pronta. As últimas páginas não têm tantos rabiscos porque o final já estava muito claro, e não dependi mais tanto assim do roteiro. 
Detalhe: este livro tem uma conversa com o livro "Ártemis", que escrevi alguns anos atrás e que pretendo revisar para publicar no ano que vem, portanto algumas partes tinham que combinar com o que acontecia no outro livro, o que acaba sendo mais complicado do que parece em alguns momentos.
Esse é o método que eu uso e o que mais me ajuda a organizar minha cabeça! Confesso que para o último livro desta série, que está sendo escrito neste momento, está sendo bem mais difícil seguir o roteiro, e já fiz três. Acontece que, justamente por ser o último, preciso atar todas as pontas soltas e, de repente, parece que tenho uma grande colcha de retalhos e não quero deixar nenhum fiapinho de fora. Acho que estou sentindo o peso da batalha final…

15 de abr. de 2015

Rockfeller - Alexandre Apolca



Rockfeller – Alexandre Apolca
Sinopse
Rockfeller - Beto Rockfeller, que possui uma leve versão da síndrome da mão alheia, sonha em fazer sucesso com sua banda de rock. Após ser preso injustamente em um protesto na Avenida Paulista, é liberado e orientado a deixar São Paulo. Ele e sua desconhecida banda — cujos integrantes são: Yakult, Gringo e Santiago dos Santos — decidem se mudar para a mística São Thomé das Letras, a Machu Picchu brasileira. É exatamente nessa aconchegante cidadezinha mineira que começa uma trama estonteante e dinâmica — repleta de aventuras, romances, crimes e mistérios.
Rockfeller se envolve com Anita Andrade, a namorada de um dos seus amigos. Esse triângulo amoroso é surpreendido com a súbita aparição de uma terrível enfermidade. Ele, desconcertado, se vê diante de uma difícil decisão, que mexe brutalmente com seus princípios morais e o pior, Rock pagará caro por sua indigesta decisão, seja ela qual for. Além disso, é obrigado a conviver com seus fantasmas, desilusões e psicoses e ainda tem de se acostumar com um enigmático corvo que o persegue.
No entanto, após muito tempo, Rockfeller consegue uma segunda chance de ser feliz no Rio de Janeiro, as suas desventuras e psicoses ressurgem, e isso pode levá-lo a uma irreparável situação em que nem tudo que se vê pode ser real...



Como começar a resenhar um livro que me surpreendeu tanto? 

Interessei-me pelo livro a partir da fanpage dele no facebook, quando achei a sinopse interessante e a capa muito sugestiva. Primeiro gostaria de falar sobre a capa: apesar de linda, não vi muita relação dela com o livro. O corvo que assombra o protagonista está lá, como um agouro esperando para ser concretizado, mas o foco principal da imagem vai para a igrejinha de pedra, que não é cenário de nenhuma passagem importante do livro, se é que aparece em algum lugar, o que não me recordo. E, apesar de que as imagens possam remeter às cidades em que o personagem reside em diferentes etapas de sua vida, na capa elas aparecem com um destaque que não existe no texto, pois as localidades não têm grande influência sobre as decisões de Beto Rockfeller. Mas isso são divagações de uma designer não atuante, e o que mais conta aqui é o livro em si. Vamos lá. 

Preciso confessar que só li o primeiro parágrafo da sinopse, até a palavra “mistérios”, que foi a que me cativou, e parei por aí. Quando comecei, eu esperava encontrar uma história com mais elementos do sobrenatural (talvez influenciada pelo corvo e pela luminosidade vermelha alienígena da capa), mas não é esse o tema do livro.

Beto Rockfeller é um jovem paulista que sonha em fazer sucesso com sua banda de rock, porém o destino tem outros planos para ele. Ele parece estar sempre na hora errada e no lugar errado, o que o leva a ser acusado de um crime que não cometeu e ter que deixar a cidade em que vive para “tomar jeito”. No entanto, o lugar para onde decide se mudar (e toda a banda o segue, já que, aparentemente, ninguém tem nada a perder em São Paulo mesmo), é São Tomé das Letras, famosa cidade mística do interior de Minas, conhecida também pela quantidade de maconheiros.

***** MUITOS SPOILERS A PARTIR DAQUI, ATÉ... *****

Rockfeller e seus amigos não deixam por menos: a quantidade de erva que os personagens deste livro fumam daria para deixar uma metrópole no clima paz e amor por meses. Talvez essa seja a única crítica que posso fazer à história: na vida de Beto Rockfeller não existe nenhuma pessoa que não seja irremediavelmente consumidora da ervinha do diabo, e o uso da droga é tratado de forma mais corriqueira do que seria fumar um cigarro. Não é uma crítica puritana, só acho que a forma como esse assunto é abordado no livro é um pouco leve demais, mesmo levando em conta o meio em que o personagem vive, com promiscuidade e, mais tarde, dentro de uma prisão. Mas isso é uma escolha do autor, e essa opinião reflete apenas meu gosto pessoal, e não a qualidade literária.

Aliás, neste quesito o autor superou todas as minhas expectativas. O modo fluído como escreve fisga o leitor desavisado, fazendo-o se esquecer do tempo. Beto vive uma paixão escondida com a namorada de um de seus melhores amigos da banda, e apesar de ter ciúmes dela, também tem medo de perder o amigo, e acompanhamos este dilema até que o destino, mais uma vez, se faz presente e decide as coisas por Beto: Anita, o objeto de amor do artista, descobre ter leucemia.

Com uma reviravolta tão grande na vida dos jovens descompromissados que são, Gringo acaba se desesperando e vai embora para a Inglaterra, sua terra natal, enquanto Beto se envolve ainda mais com Anita e passa a procurar desesperadamente um doador para salvar sua vida. No entanto, quando o milagre finalmente parece acontecer, o doador se mostra um vigarista, e, para conseguir o que precisa, Beto se envolve em um crime. Por causa dele Anita é salva, mas Beto vai para a cadeia apodrecer por 20 anos…

O tempo passa na prisão. Beto afasta Anita de sua vida para não lhe roubar a juventude, e outras pessoas de sua vida também saem de cena, deixando-o praticamente sozinho, ou melhor, acompanhado dos novos amigos de cela (entre eles o curioso Alexandre Apolca. Sim! O escritor, que se fez personagem para receber o manuscrito póstumo de Beto Rockfelelr e trazer a história para vocês!). O único que sabe de toda a verdade é o amigo Yakult, que o apoia quando Beto é solto finalmente.

Uma vez livre, Beto vai procurar Anita na esperança de, talvez, ainda ter uma esperança de reatar com ela. Reencontra a mãe da jovem, agora já uma idosa que mantém os mesmos hábitos de hippie de antes, embora possamos sentir uma sombra de tristeza pairando em seu coração. Ela conta que a filha se casou com Gringo depois que ele voltou da Inglaterra e que Beto a tirou de sua vida, e que os dois tiveram uma filha, que agora tem quase dezoito anos. Porém também conta que Anita morreu num acidente de carro com Gringo, o que faz o mundo de Beto desmoronar.

Sem mais nada na vida, Beto decide procurar a filha de Anita para, quem sabe, cuidar dela, como uma espécie de pai postiço. A jovem, que é muito parecida com a mãe, no entanto, o recebe muito bem (bem até demais), e, depois de muita insistência dela, os dois acabam se envolvendo num romance de muito sexo, bebidas e o famoso cigarrinho do diabo que, pelo visto é mal da família de Anita. 

No entanto o destino bate à porta mais uma vez, e novamente na forma do corvo, o mesmo que assombra Beto Rockfeller em vários momentos anteriores, sempre associado com alguma tragédia prestes a acontecer. Nas páginas finais, no entanto, o corvo aparece constantemente, sempre com uma frase que nos remete imediatamente ao mestre Edgar Alan Poe, “Nevermore”, desta vez, porém, associado a aparições de Anita e à voz de seu pai já falecido, que passa a conversar com ele. Mais uma vez, o presságio não falha: ao mesmo tempo em que Scarlett, a filha de Anita, descobre que está grávida, descobre também que tem a mesma doença da mãe, e que precisará escolher se tratar imediatamente e perder o filho, ou levar a gravidez ao fim e tentar se tratar mais tarde. 

A decisão fica apenas nas mãos da jovem, que decide não se tratar, mas, desta vez, nenhum milagre intercede pelo mal fadado casal. Depois de meses difíceis, o filho nasce morto, e Scarlett permanece no hospital mais alguns dias, enquanto Beto é mandado aguardar em casa. Alguns dias depois, porém, a moça reaparece em casa, triste pela perda do filho, mas totalmente curada da doença, e Beto se vê novamente diante de uma reviravolta, acreditando que finalmente poderá ser feliz.

Mas o corvo está presente o tempo todo, Anita também o assombra, dizendo que jamais serão felizes, e a voz do seu pai o faz duvidar da fidelidade de Scarlett.

Acreditando piamente que Scarlett está tendo um caso com o vizinho, Rockfeller invade o quarto do homem e pega sua mulher nua na cama com ele. Enlouquecido, Beto agride o homem com uma faca, e Scarlett, jurando ter sido chantageada a transar com ele, o ajuda a matar o rapaz.

Mas Yakult retorna, e o presságio do corvo se torna real novamente, mostrando o grau de loucura em que Beto Rockefeller está (ou será que ele é mesmo assombrado?), e o fecho desta história é com chave de ouro.
***** SPOILERS TERMINAM AQUI! *****

Meus parabéns ao autor pelo brilhantismo como conduziu as aparições do corvo, e pelo modo com a tal síndrome da mão alheia, algo que em todo o livro não parece mais que um detalhe sem importância, se torna vital nos momentos finais, deixando-nos a dúvida: é Rockfeller vítima da perseguição de um corvo maldito, que transformou sua vida numa montanha russa de desvios impossíveis? Ou seria apenas um louco caminhando lentamente para a total perda da lucidez? Isso, só o leitor poderá responder!

2 de abr. de 2015

Z - Resenha



Z – Manuel Alves
Sinopse
Z vive confinado numa sala branca e vigiado por um sistema de segurança criado especificamente para o conter. Z é o último de mil crianças nascidas de úteros artificiais, dotado de um extraordinário poder de raciocínio e capacidades físicas que o colocam um degrau acima da evolução humana. Z tem um plano para escapar mas, para isso, terá de enfrentar o seu carcereiro e criador: o Professor, um homem frio e metódico, possuidor de um intelecto que rivaliza com o de Z.



Considerações
Um dos textos mais interessantes com o qual me deparei nas minhas incursões pelo universo dos autores brasileiros independentes. O autor Manuel Alves envolve o leitor aos poucos no universo do personagem, e não apresenta a história toda de uma vez. A sinopse acima, por exemplo, fala bem mais sobre o conto do que o início da história.
No início, somos lançados na sala branca onde vive Z sem sabermos nada sobre o rapaz. Sabemos que ele é negro e tem olhos azuis, mas não sabemos a idade dele, que lugar é aquele onde ele está, quem é o estranho professor que o visita e o testa, nem o que fez para ficar ali. A primeira impressão que tive era a de estar lendo a história de alguém com amnésia, mas essa sensação é logo afastada pela maestria do autor, que nos dá informações preciosas a conta gota, e com isso nos faz descobrir muito mais do que está nas palavras.
A sinopse da própria página de venda do livro na Amazon é bem elucidadora, e não creio que seja necessário dizer muito mais a respeito da trama para não correr o risco de dar spoilers desnecessários. Basta dizer que tive a sensação de estar assistindo ao episódio piloto de uma promissora série de ficção científica. Resta saber se o autor dará continuidade a ela, porque certamente ela tem potencial para crescer muito.