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13 de fev. de 2015

Sobre a marca INDIE






 É estranho apanhar um livro e não ver nenhuma informação além do nome dele e do autor na capa (já peguei alguns sem nem o nome do autor na capa). Por outro lado, já peguei livros que só tinham essas duas informações pensando que eram de autores independentes e, quando fui procurar mais a respeito deles, descobri que foram editados por editoras pagas, editoras de Portugal, editoras menores, resumindo: não eram independentes.

Acho importante ter a informação do modo como o livro foi editorado disponível e de forma fácil, mas imagino que muitos leitores potenciais não comprariam um livro se estivesse escrito “obra independente” ou “autor independente” na capa. Dá uma ideia de libertinagem, ou de coisa feita às pressas. Meu jeito de resolver essa questão foi criar o logotipo “Indie”.

 “Indie” não é o nome de nenhuma editora, pelo contrário: é o diminutivo que os americanos costumam utilizar para a palavra “Independent”. O símbolo que o acompanha nada mais é que uma representação do céu bhardano — as três luas e a estrela de oito pontas Lincariell, portanto uma referência à própria obra.

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10 de fev. de 2015

A Pedra Celestial - Resenha



A pedra celestial – Daniel Monteiro

Sinopse

Após anos do desaparecimento do homem sem signo, Ivan, um jovem errante que esconde seu passado, se une à tripulação do Capitão Balboa numa viagem marítima em busca de riquezas escondidas. Superando diversos obstáculos, a longa viagem finalmente leva os marinheiros até Namal-te-Raan, uma ilha misteriosa e tropical, cujos segredos são mais valiosos que qualquer moeda de ouro ou prata. Acompanhe Ivan na aventura que revelará toda a história de como o mundo foi privado do seu equilíbrio natural desde épocas imemoriais e descubra a importância e a razão da existência do maior de todos os enigmas: a Pedra Celestial.



Considerações


Nas primeiras páginas do livro, o autor nos promete muita aventura. E ele não decepciona: desde a primeira página, somos arrastados para lá e para cá junto com Ivan, o jovem que acaba de se juntar à tripulação de marinheiros do navio do Capitão Balboa que, puxados por aquáticos — seres humanoides que vivem sob as águas e são muito mais fortes que os humanos comuns — chegam a Namal-te-Raan, uma ilha tropical cheia de segredos, onde os homens esperam encontrar tesouros incalculáveis.

No entanto, Namal-te-Raan não é uma ilha inabitada, e quase imediatamente a tripulação do navio arranja confusão: ao perseguirem Nora-Celtah, uma bela jovem impetuosa, acabam cercados por guerreiros do povo misteriosos que vive na ilha, e são feitos prisioneiros. No caminho para o cárcere, Ivan consegue fugir, mas, desta vez, é Nora-Celtah quem o persegue. Sua corrida desabalada o leva ao território de outros seres da ilha, humanoides peludos e com cauda, a quem o povo de Namal-te-Raan chama de uroncions

Feito prisioneiro, Ivan acaba começando uma amizade com Nora-Celtah. Ao ser interrogado, os uroncions descobrem que Ivan veio de Maacian, onde se encontra algo que eles querem muito, e dizem que não vão libertá-lo até que o rapaz conte onde está, ainda que Ivan diga que não sabe do que estão falando. Então, para escapar, Ivan precisa invocar um poder misterioso que lhe concede energia sobre-humana vinda da lua, e quebra a jaula em que está preso.

O que ele não imagina é que sua fuga pode desequilibrar a harmonia do convívio entre os humanos e os uroncions, pois eles ofereceriam os prisioneiros para barganhar a chance de nadar no Poço de Gadu e conseguir tirar de lá a Lança Dourada, uma arma que, segundo a lenda, só será conquistada pelo herói que trará equilíbrio ao mundo.

Em sua fuga, o caminho de Ivan acaba cruzado com o de Velho Cid, um meio homem meio aquático que vive como eremita na ilha. Por algum motivo Velho Cid se afeiçoa a Ivan e passa a ajudá-lo. Mas Ivan acaba novamente capturado pelos humanos, e lhe é dada uma escolha, a mesma dada a todos os seus companheiros de viagem: morrer de uma vez ou tentar a sorte mergulhando no profundo Poço de Gadu. Se ele trouxesse a Lança Dourada sua vida seria poupada e ele se tornaria um herói.

Como estamos falando de um herói, naturalmente Ivan consegue alcançar a Lança Dourada, apesar de ter recebido ajuda de uma mão misteriosa subaquática. No entanto, achando que vai fazer algo certo, Ivan destrói uma relíquia dos uroncions com a lança, e a magia liberada é tão poderosa que destrói toda a cidade dos humanos e faz brotar uma bizarra árvore de pedra.

Pela destruição da cidade, Ivan é novamente sentenciado à morte, mas o Velho Cid interfere e promete treinar o rapaz com sua arma mítica no lado proibido da ilha, onde vivem as criaturas que assombram tanto uroncions quanto humanos, fazendo com que ele finalmente se torne o herói que deve ser. Resignado, Ivan se torna um homem forte e, com a proteção de seu misterioso poder da lua, parte para a jornada final na ilha, com o objetivo de destruir, de uma vez por todas, o artefato mágico que mantém vivos os mortiços – os inimigos comuns das raças que habitam a ilha, e que, para mim, são parecidos com zumbis. 

Esse panorama é apenas uma leve pincelada na história, pois “A Pedra Celestial” tem tantas aventuras quanto o autor promete em seu prelúdio. Como eu já conhecia o livro anterior do autor, não foi surpresa encontrar um cenário totalmente divorciado de tudo o que encontramos por aí em termos de fantasia: Daniel Monteiro tem espécies originais, e suas aventuras são permeadas por influências tão diversas que criam um ambiente único. A trama também é original: embora os elementos mágicos estejam presentes, Ivan usa mais astúcia e perícia do que propriamente magia para enfrentar seus desafios. A saga do herói, que precisa colocar o bem de todos acima dele mesmo, está presente, mas Ivan também é impulsivo e rebelde, às vezes, e contesta os ensinamentos de seu mestre mesmo que, no final, acabe compreendendo o que o Velho Cid quer passar. 

Sobre a parte textual, por ser um livro de autor independente, normalmente esperamos encontrar alguns buracos, lapsos na trama que ficaram esquecidos, ou muitos erros de gramática. Nada disso existe n’A Pedra Celestial, que é sutilmente conectado com o livro anterior, “O homem sem signo”, sem, contudo, depender dele para se sustentar, e a sensação que tive foi de ler um livro pronto para o público, o que prova o quanto a narrativa de Daniel Monteiro evoluiu do primeiro para o segundo livro.

Recomendadíssimo para todos aqueles que gostam de aventura, ação e fantasia. E para mim, que já li, só me resta esperar o encerramento desta saga chegar.

4 de fev. de 2015

Dilemas do Escritor-Editor



Para o escritor independente o maior desafio é a autopromoção. Talvez isto não seja um desafio tão grande para alguém que tenha o marketing por profissão, mas essa normalmente não é a realidade da maioria dos escritores. Então o aventureiro que se arrisca nessas águas incertas precisa ter em mente que terá duas opções, as mesmas que as espécies tiveram ao longo de sua evolução: ou se adapta ou desaparece.



No princípio a repercussão do trabalho é sempre motivadora, especialmente se sua família for grande: no mínimo um punhado de tios e primos, além dos pais e irmãos, farão certa propaganda de você, orgulhosos por terem um parente escritor. É óbvio que o independente precisa aproveitar este momento ao máximo, mas ele precisa saber: isso vai acabar. Parentes e amigos não vivem no mesmo mundo que você (o dos seus livros), e logo seu interesse se dispersa. Você faz um grande coquetel de lançamento, vende 50 livros, o círculo de pessoas que participou da festa posta montes de fotos do lançamento nas próprias redes sociais, falam disso por três dias, depois silêncio. Seu livro fica esquecido até que algum leitor resolva fazer uma resenha ou comentar alguma coisa.

Antigamente, era das editoras o papel de manter o interesse do público sobre seus livros, e fazer o máximo para atrair novos leitores. O escritor ficava com um papel coadjuvante, pouco contribuindo para atrair o interesse sobre o que ele escrevia. Esta realidade está mudando por causa das redes sociais, e hoje mesmo escritores famosos ajudam as editoras a promoverem seu trabalho.

Para o escritor independente esta tarefa precisa ser levada muito mais a sério, já que não haverá ninguém mais para cuidar disso pra você. Se numa editora, o ganha-pão dos representantes é o livro, para o independente o texto é uma realização pessoal, uma obra de arte, uma peça única e inigualável, destinada a ser o próximo best-seller. Embora seja inevitável sonhar desta forma, não colocar os pés no chão pode ser tão prejudicial quanto achar que ela não é boa o bastante.

O desafio do autor indie é conciliar na mente o conceito de que seu livro é tanto uma realização do espírito quanto um produto qualquer, pois ele tem que ser tanto o escritor quanto o editor e, neste último quesito, precisa encarar seu livro como um produto a ser consumido.

Não estou dizendo que o escritor precisa pensar nas vendas à medida que escreve. Muitos fazem isso hoje, e adéquam seu texto ao mercado, o que gera histórias pouco originais e insossas, que apenas seguem modismos. Acredito que este pensamento esteja errado, pois há necessidade de novidades, porém, para dar certo, elas precisam ser bem trabalhadas. Sejamos razoáveis: se não há vendas, não há leitores e, sem leitores, os textos ficam esquecidos, e nenhum escritor deseja isso para sua obra.



Então, o que o autor pode fazer para driblar a falta de um marketeiro e de milhões de reais em investimentos? A resposta é simples: ser criativo!

Pela natureza da própria ocupação, todo escritor é um ser criativo. Ele precisa ser para poder dar vida às suas histórias. Então, se num primeiro momento o autor deve usar toda sua energia em seu universo de letras, quando o manuscrito está terminado ele precisa de igual ou mais empenho inventivo para desenvolver um plano eficiente para instigar a curiosidade e não deixar que seu projeto caia no limbo. Por mais que você acredite na qualidade da sua história, apenas escrevê-la não fará com que leitores se interessem por ela, e não há maior motivo de desânimo do que pensar que ninguém se interessa pelo que você escreve.

Portanto, escritor, use sua imaginação, lance mão de todas as armas que tiver, e desenvolva um trabalho de divulgação que não permita que seu livro se transforme em mais uma obra fantasma! E mãos à obra!

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2 de fev. de 2015

'Salem - Resenha



‘Salem (A hora do vampiro) – Stephen King
Sinopse
Ambientado na cidadezinha de Jerusalem`s Lot, na Nova Inglaterra, o romance conta a história de três forasteiros. Ben Mears, um escritor que viveu alguns anos na cidade quando criança e está disposto a acertar contas com o próprio passado; Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror; e o Senhor Barlow, uma figura misteriosa que decide abrir uma loja na cidade.




Nasci em 1985, muitos anos depois, portanto, de Stephen King começar a fazer sucesso. Conheci sua obra primeiramente através dos filmes, e mesmo sabendo que o autor era considerado um mestre do terror e tendo tanto gosto pela leitura, só mais tarde seus livros começaram a chegar às minhas mãos. ‘Salem, originalmente chamado “A Hora do Vampiro”, esteve em minha companhia recentemente, e posso dizer que se você gosta de sentir calafrios, este é o livro certo.

Tecendo uma trama intrincada entre os moradores da cidadezinha Jerusalem’s Lot, King nos leva a conhecer o caráter não apenas dos personagens principais, mas de uma quantidade absurda de personalidades que vão sendo acrescentadas com naturalidade à história, dando ao leitor a mesma sensação que tem o protagonista: um forasteiro que, apesar de ter passado alguns anos da infância na cidade, pouco conhece das pessoas, e vai assimilando-as aos poucos. 

A história se desenvolve em torno de Bem Mears, um escritor que retorna à cidade em que passou a infância para conseguir inspiração para escrever um livro — esta é a versão que ele dá para todos, mas, à medida que avançamos nas páginas, descobrimos que há mais no passado de Ben que o motivaram a voltar à cidadezinha. E, enquanto trabalha a visão do protagonista dos acontecimentos estranhos que rondam a cidade, King nos apresenta Mark Petrie, um garoto magricela e meio nerd, que acaba sendo o primeiro a entender o que está acontecendo; o Padre Callahan, cuja fé está enferrujada, e que deseja ardentemente colocá-la à prova; Susan Norton, a garota que deseja sair do interior e ir para a cidade, entre vários outros, inclusive o misterioso e também forasteiro Senhor Barlow, que ninguém nunca vê e que chegou à cidade com a intenção de abrir uma loja de antiguidades, e que comprou a horripilante Mansão Marsten no alto de uma colina, cenário de vários acontecimentos trágicos no passado e onde ninguém quer por os pés.

Pra quem está acostumado com vampiros que brilham e só bebem sangue sintetizado em laboratório ou de bolsas roubadas de bancos de sangue um aviso: os vampiros de King têm a essência das histórias de terror originais. O pavor provocado pela simples presença deles é tão real, tão visceral, que o leitor que se arriscar a ler ‘Salem sozinho na calada da noite pode ter problemas com os pequenos ruídos que a madeira produz. King não apenas descreve com minúcias a sensação de pânico absoluto como o faz mergulhar nela, transformando o simples ato de olhar pela fresta de uma porta entreaberta num gigante ato de bravura. Com primazia, as histórias individuais de cada personagem que, inicialmente, poderiam parecer dispersas, convergem para um único ponto, um clímax terrível e impressionante, capaz de fazer a geração que só conhece vampiros “bonzinhos” entender o temor causado pelas lendas medievais envolvendo essas criaturas. O leitor se sente parte da história, parte do mistério, e se vê torcendo para que amanheça de uma vez e as sombras voltem para seus esconderijos. 

Sem dúvida, um dos melhores livros que já tive nas mãos, recomendado não apenas para quem gosta do gênero, mas para quem gosta de escrever e perceber os recursos narrativos usados pelo autor para amarrar uma história tão complexa como esta. Não é de se admirar que tantos filmes e jogos de terror (meu favorito Silent Hill, por exemplo), tenham tanta inspiração nas obras de King.

Ah, só uma nota: assim que tive o livro nas mãos não entendi porque a nova versão apresentar o título “ ‘Salem”, ao invés do original “A hora do Vampiro”. Achei que o novo título ficou vago, Salem remete à Idade Média e a bruxas, não a uma cidadezinha perdida e quase contemporânea. Mas estou com “Sombras da Noite” em mãos, e King visita novamente Jerusalem’s Lot, e descobrimos que há mais nas sombras de ‘Salem do que apenas as trevas dos vampiros. Enfim, não sei o por que da mudança do título, mas agora, quando vejo algo com Jerusalém ou Salem no nome, é Stephen King que me vem à cabeça.