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10 de jul. de 2015

Morte Súbita - Resenha

Morte Súbita

Sinopse

Morte Súbita - Quando Barry FairBrother morre inesperadamente aos quarenta e poucos anos, a pequena cidade de Pagford fica em estado de choque. A aparência idílica do vilarejo, com uma praça de paralelepípedos e uma antiga abadia, esconde uma guerra.

Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com os maridos, professores em guerra com os alunos Pagford não é o que parece ser à primeira vista.

A vaga deixada por Barry no conselho da paróquia logo se torna o catalisador para a maior guerra já vivida pelo vilarejo. Quem triunfará em uma eleição repleta de paixão, ambivalência e revelações inesperadas? Com muito humor negro, instigante e constantemente surpreendente, Morte Súbita é o primeiro livro para adultos de J.K. Rowling, autora de mais de 450 milhões de exemplares vendidos.



Considerações

É difícil julgar um escritor quando se é fã incondicional dele. J.K.Rowling fez parte da minha adolescência e me acompanha até hoje, pois releio Harry Potter sempre que dá vontade. Os sete livros da coleção estão amarelados e gastos, como os livros de biblioteca depois de um tempo, mas eu e minha mãe somos as únicas a manuseá-lo.

Talvez tenha sido por isso que não procurei muitas informações sobre Morte Súbita. O máximo que li foi um trecho de uma resenha no Skoob de uma garota que falava que este livro não é nada parecido com Harry Potter.

Não, eu não esperava um livro de magia, mas fui ludibriada pelo título porque, associando-o com a sinopse, acreditei que se tratasse de um romance policial, e só percebi que não era nada disso já bem adiantada. A essa altura, eu já estava fisgada.

Logo no início, nas primeiras páginas mesmo, acontece o evento que alterará a vida da pacata comunidade de Pagford: um dos Conselheiros da cidade morre, o que deixa sua vaga livre. Este é o estopim para uma série de tramoias e manobras que os próximos candidatos à vaga vão se envolver, numa teia intrincada que envolve amigos, opositores e oportunistas, suas famílias, maridos, esposas, filhos e parentes.

Tive a sensação de ser jogada num turbilhão, algo parecido com o que aconteceu comigo no início do meu namoro, tempos atrás, quando conheci toda a família do meu marido em uma festa de Natal: cerca de cinquenta novos nomes, vozes e rostos, de quem eu deveria me lembrar. Devo explicar que sou péssima com nomes, e ainda hoje tenho dificuldade para lembrar da minha própria árvore genealógica, e, ao ser introduzida no seio das famílias de Pagford e me ver acompanhando eventos nas casas de vários membros, fiquei bem perdida. Cheguei a pensar que não conseguiria ler Morte Súbita até o fim, ou que não conseguiria ver nenhuma graça na história porque não ia conseguir memorizar os nomes de cada personagem.

Mas, depois de trinta, quarenta páginas, me vi pensando em uma das personagens, e em como ela ia reagir ao que tinha acabado de acontecer. E percebi que estava completamente enfeitiçada.

É impossível falar da história de Morte Súbita sem falar de cada um de seus personagens, e são tantos e com características tão distintas entre si, que não consigo pensar em como falar deles sem desmerece-los. Mas posso dizer que, ao acompanhar a corrida pela eleição do novo Conselheiro, começamos a descobrir que a bucólica e paradisíaca Pagford não é uma comunidade tão pura e bela quanto parece. Seus moradores têm qualidades e defeitos, e, se são heróis para algumas coisas, são vilões em outros momentos. Nos vemos constantemente pensando em como fulano ou ciclano se parece com pessoas que conhecemos no dia a dia, e a presença deles é tão marcante que, no final, temos a sensação de conhece-los a vida toda.

É notável como Rowling trabalhou com o psicológico de cada personagem, e também com o papel decisivo que os adolescentes têm nos rumos desta história. Vivemos alegrias e tristezas, e, se o final é de partir o coração, serve também para refletir e mostrar que a vida não é um conto de fadas, pois Morte Súbita não é mesmo um conto de fadas. É, antes, a história de como uma única pessoa (no caso Barry Fairbrother, o Conselheiro que morre no início), é capaz de afetar direta ou indiretamente tantas vidas, e alterar o curso delas.

E, embora a trama em nada se relacione com o fenômeno infanto-juvenil da autora, posso dizer que consegui ver nitidamente a assinatura característica de Rowling que foi a mesma que me prendeu a Harry Potter desde o início: a capacidade que ela tem de construir um universo inteiro convincente, com personagens tão sólidos e críveis, que se relacionam em diversos níveis e momentos, fazendo com que as letras desapareçam do papel, e nos vejamos submersos nas casas de cada um dos cidadãos pagfordianos.

Ah! Para os curiosos de plantão, este livro se tornou uma minissérie em três episódios, que você pode conhecer aqui: http://www.imdb.com/title/tt2554946/?ref_=fn_al_tt_1 Mas, se você é desses que comparam livro e filme, tome cuidado: é impossível ser fiel a um livro da Rowling de 500 páginas em três horas de série. Eu e meu marido assistimos, e ele ficou ainda mais irritado com a mutilação da história do que eu. Mas vale como a visualização do cenário.


8 de jul. de 2015

NATUREZA - meu novo conto

Faz tempo que não publico nada aqui a não ser minhas resenhas, então lá vai: estou participando do concurso ‪#‎brasilemprosa‬ na Amazon! E hoje o conto NATUREZA está grátis para download!


Leia e classifique essa história, você nem imagina o quanto uma notinha pode representar para esta escritora!



5 de jul. de 2015

ZONA MORTA - RESENHA

Sinopse

Zona Morta - Jonny Smith é um simplório professor secundário, acorda de um coma de cinco anos aparentemente sem sequelas, a não ser por uma área de seu cérebro danificada, que o impede de reconhecer certos objetos. Os médicos dão a essa área o nome de zona morta.

Mas a zona morta abriga muito mais do que memórias esquecidas. Por conta dela, Johnny desenvolve o poder de prever o futuro. Isso também é sua condenação - nela cresce um tumor que rapidamente suga suas energias.

Após conhecer Greg Stillson, um inescrupuloso candidato a deputado, Johnny tem terríveis visões do político como presidente dos Estados Unidos e o país mergulhando numa guerra nuclear. Perturbado, ele terá que enfrentar o difícil dilema: sofrer em silêncio, sabendo das tragédias que virão, ou matar Stillson, numa desesperada tentativa de impedir a catástrofe prenunciada.



Considerações

Este livro chegou às minhas mãos através de uma troca no site Skoob. Escolhi Zona Morta por causa do autor, pois sendo ele Stephen King já imaginava mais ou menos o que me esperava. Exatamente como disse a menina que me enviou, o livro era bem antigo, com as páginas amarelas, mas não me importei: fora isso, estava perfeito, exatamente como foi publicado 30 anos atrás, com essa capa terrível. Convenhamos, se fosse o livro de um autor iniciante numa livraria qualquer hoje, julgando pela capa eu passaria longe dessa aí. Salve o design! Mas design nenhum muda o conteúdo e, dentre os livros de King que já li, confesse que este foi o que menos me agradou.

No livro acompanhamos a vida de Jonny Smith, um rapaz aparentemente normal, mas que já mostra sinais de que tem uma capacidade peculiar de vislumbrar o futuro, e vemos como, logo após conhecer a garota dos seus sonhos, ele sofre um acidente e entra em coma. Só cinco anos depois Jonny acorda, e a realidade que o aguarda é perturbadora: a mulher que ele amava se casou com outro e tem um filho; a mãe enlouqueceu, tornando-se uma fanática religiosa; o pai se aguenta como pode, e é o único que mantém um pouco da sanidade em meio a toda a confusão; e Jonny torna-se quase um experimento ambulante, já que médicos de todo o mundo querem estudar o fascinante homem que acordou do coma, e descobrir o que aconteceu com seus músculos, com seu sangue, com seu coração, se ele poderá andar de novo, se tem alguma sequela, coisas assim. Além disso tudo, Jonny não tem mais emprego, e a dívida acumulada do hospital é gigantesca.

Mas, antes mesmo de deixar o hospital, Jonny descobre que suas habilidades de enxergar o futuro, ou ler coisas nas mentes das pessoas, está muito mais poderosa. Por causa delas, Jonny ajuda a salvar pessoas e a prender um assassino, é tido como aberração por alguns, como charlatão por outros, e como ídolo de adoração por outros ainda, e acaba se refugiando no interior. Consegue voltar a lecionar como professor particular, e, por ser muito querido por seu primeiro aluno milionário, e por conseguir ensiná-lo e ajudá-lo a vencer seus bloqueios didáticos, e também por evitar que o garoto fosse morto durante uma tragédia prevista por Jonny, que acontece numa festa de que o aluno participaria, cai nas graças do pai do rapaz, que, em gratidão, paga sua dívida no hospital e ainda lhe garante dinheiro para viver tranquilo por um bom tempo.

No entanto uma estranha visão o persegue: uma visão perturbadora de um tigre sobre corpos, que ele tem ao apertar a mão do candidato político Greg Stillson, e ele passa a acompanhar a carreira deste homem e acaba entendendo que a ascensão dele ao poder culminaria com a presidência, e se convence de que ele levaria o país à guerra nuclear. E isso seria bem possível, pois acompanhamos, paralelamente à história de Jonny, a história de Greg, e sabemos o quanto este homem é perturbado e mau.

Abdicando da normalidade e com a saúde cada vez mais frágil, Jonny passa a perseguir Greg e traça um plano para acabar, de uma vez por todas, com as chances daquele homem levar o país à guerra. O resultado é surpreendente, pois mesmo que Jonny não conclua exatamente como o planejado, as coisas acontecem do jeito como devem ser.

A trama é até interessante, mas neste livro o autor se estendeu tanto em todas as partes que ele se torna cansativo. Mais uma vez fui levada a acreditar que King deve sofrer de enxaquecas, pois Jonny tem as suas ao usar o poder mental. A parte que trata do período de coma e da convalescença de Jonny enquanto se recupera é massacrante, e não consegue prender o leitor da mesma forma que outros livros também de King. Além disso, os poderes de Jonny são muito parecidos com o de vários outros personagens de Stephen King, e eu o associei imediatamente a Andy McGee, de A INCENDIÁRIA. A namorada de Jonny, que acaba reaparecendo para um breve flash-back e em quem a história se foca no início, acaba não tendo nenhum papel relevante na história, diferente da mãe fanática religiosa, que faz um pedido a Jonny em seu leito de morte, e que o acompanha pelo resto da vida.

Concluindo: Zona Morta tem uma história legal, mas é bem cansativo de ler. Há outros livros deste autor bem melhores; no entanto, o final compensa a lentidão da linguagem, e dá ao próprio leitor a sensação de dever cumprido.


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23 de jun. de 2015

O LADO BOM DA VIDA - RESENHA

O lado bom da vida – Matthew Quick
Sinopse
Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele 'lugar ruim', Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um 'tempo separados'. Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com o pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida.



Considerações

Comprei este livro após assistir o filme com mesmo título inspirado no livro. Confesso que me decepcionei um pouco. O filme tem um tom totalmente diferente, uma comédia dramática, e o livro é praticamente apenas drama, embora tenha uma história interessante.

Acompanhamos a volta de Pat Peoples ao lar após um tempo no “lugar ruim”, que é como ele chama o hospital psiquiátrico onde passou, na verdade, vários anos de sua vida, e não apenas alguns meses. Pat é agora obcecado por exercícios físicos, e acredita que sua mulher apenas deu um tempo no casamento por achar que Pat não era um bom marido, coisa que ele luta para demonstrar que não é mais verdade. Então Pat é apresentado a Tiffany, a cunhada de seu melhor amigo, que também enfrenta problemas psicológicos. Os dois começam a correr juntos, ainda que Pat não tenha exatamente convidado Tiffany para isso, e, por estarem os dois enfrentando problemas tão semelhantes, acabam se aproximando e se tornando amigos.

Vemos como ele tenta, aos poucos, deixar suas crises nervosas no passado e realmente ser uma pessoa melhor, no que é apoiado por seu irmão, pelo melhor amigo e por sua mãe, mesmo que seu pai não compartilhe dessa mesma atitude. A narrativa é interessante, já que parte do ponto de vista perturbado de Pat, nos colocando dentro da cabeça de alguém com distúrbios mentais. É um livro bonito, com uma história muito próxima do leitor comum, e se não fosse pelos setenta por cento dele que narram jogos de futebol americano dos Eagles, eu provavelmente teria gostado mais. O fato é que, mesmo sendo um drama e mesmo sabendo que a narrativa exaustiva dos jogos provavelmente foi um recurso literário para mostrar o grau de obcessão do personagem, a quantidade de detalhes sobre os tais jogos dos Eagles torna a leitura mais cansativa do que poderia ser. Se não fosse pela página final, com um final feliz do único jeito que poderia ser, seria um livro no máximo razoável, mas esse final existe, e faz toda a loucura de Pat fazer sentido de alguma forma.


Recomendo com ressalvas: não assista o filme primeiro, porque provavelmente o livro não vai agradar como poderia.

15 de jun. de 2015

Marina - Resenha

Marina – Carlos Ruiz Zafón

Sinopse

Neste livro, Zafón constrói um suspense envolvente em que Barcelona é a cidade-personagem, por onde o estudante de internato Óscar Drai, de 15 anos, passa todo o seu tempo livre, andando pelas ruas e se encantando com a arquitetura de seus casarões. É um desses antigos casarões aparentemente abandonados que chama a atenção de Oscar, que logo se aventura a entrar na casa. Lá dentro, o jovem se encanta com o som de uma belíssima voz e por um relógio de bolso quebrado e muito antigo.

Mas ele se assusta com uma inesperada presença na sala de estar e foge, assustado, levando o relógio. Dias depois, ao retornar à casa para devolver o objeto roubado, conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos que o leva a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre à mesma data, à mesma hora. 

Os dois passam então a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher do cemitério, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra manequins vivos e se defrontando com o mesmo símbolo - uma mariposa negra - diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona. Tudo isso pelos olhos de Oscar, o menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve, passando a conviver dia e noite com a falta de eletricidade do casarão, o amigável e doente pai da garota, Germán, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos. 

Em Marina, o leitor é tragado para dentro de uma investigação cheia de mistérios, conhecendo, a cada capítulo, novas pistas e personagens de uma intrincada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona e teve com sua bela esposa um fim trágico. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido, a não ser por Oscar e Marina, que vão correr em busca da verdade - antes de saber que é ela que vai ao encontro deles, como declara um dos complexos personagens do livro.



Considerações

A princípio, pensei em não resenhar este livro, tanto porque há muitas resenhas disponíveis na internet, como porque a sinopse conta até mais do que o necessário para fazer o leitor se interessar. No entanto, mudei de opinião após conversar com uma pessoa que teve uma impressão diferente da minha e da maioria das pessoas que vi.

Peço ao leitor que ainda não conhece essa história que tenha cautela ao ler esta resenha, pois precisarei revelar partes do enredo. 

Óscar é um garoto solitário que vive num colégio interno, e, ao final de cada dia, sai às vezes com seu melhor amigo, às vezes só, para passeios por Barcelona. Em certa ocasião, ele faz o trajeto sozinho, e descobre uma rua esquecida cheia de casarões abandonados. Quando já pensa em voltar, é seduzido por um canto doce, e acaba acidentalmente roubando um relógio da casa de onde vem o canto. Ao voltar à residência para devolver o objeto, Óscar conhece Marina, uma jovem mais ou menos da mesma idade que ele, que vive naquela casa da rua abandonada com o pai doente, de quem cuida. Marina não vai à escola e não tem muitos amigos, o que torna a amizade entre ela e Óscar natural.

A partir daí o leitor é envolvido num mistério: Marina quer descobrir a verdade sobre uma estranha mulher de véu preto que visita um cemitério esquecido de Barcelona, sempre no mesmo dia do mês, sempre à mesma hora. Os dois adolescentes se envolvem em mistérios que envolvem um cientista louco, experimentos grotescos com seres humanos, e um romance trágico, e cada revelação é mais surpreendente que a outra, deixando o leitor totalmente incapacitado de largar o livro. E, embora já exista mistério suficiente na história que os jovens estão investigando, ainda há um mistério que Óscar precisa desvendar sozinho: quem é Marina? Que segredos ela esconde? Pois obviamente existe um, e o leitor se pega imaginando, página após página, qual seria este mistério. Seria Marina um fantasma? Uma alucinação? Alguém de outra vida?

O segredo de Marina só é revelado no final da história, e certamente emociona o leitor, que se sente solidário e companheiro de Óscar, e sente toda sua solidão quando Marina parte, e o deixa sozinho mais uma vez.

No entanto…

Li Marina com a mesma empolgação com que li os outros livros de Carlos Ruiz Zafón. Ao chegar ao final, julguei que tinha entendido tudo: as revelações de Zafón revelavam tudo, simples assim. Porém, quando peguei este livro na biblioteca municipal, tanto minha mãe como meu marido o leram também no período em que o tive emprestado, o que proporcionou boas conversas a respeito dele. Minha mãe teve as mesmas impressões que eu e que a maioria dos leitores de quem li as resenhas.

Mas meu marido, que não é fã do gênero fantasia e que costuma ter pontos de vista diferentes, me mostrou uma outra possibilidade de interpretação do livro, que o torna ainda mais fascinante e misterioso, deixando uma grande interrogação que, creio, nunca se apagará.

Garanto que a dúvida deixada por Marina é tão intrigante quanto a veracidade ou não da traição de Capitu. Ou mais, já que as possibilidades do que teria acontecido ou não são muito maiores.

A PARTIR DESTE PONTO HÁ MUITAS REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO!

No início do livro, a nota do autor sobre o livro Marina é um tanto quanto reveladora: este é, talvez, o livro mais pessoal do escritor.

Logo no início do texto temos outra frase importante, dita por Marina para Óscar no meio do livro, e que ele reforça tanto no início quanto no final, e que é talvez a mais importante para lançar a teia de dúvidas que não se desenrola: Marina diz a Óscar que a gente só se lembra bem do que nunca aconteceu. E é nesse ponto que começamos a acompanhar os relatos de Óscar, já um homem de mais trinta anos, sobre o que aconteceu com ele na semana em que ficou desaparecido por Barcelona, para a qual ele deu explicações diferentes para cada pessoa, de acordo com o que a pessoa em questão poderia ou não entender.

Óscar é um menino solitário e vive num internato. Seus pais não fazem questão nem de passar as festas de fim de ano com ele, o que o torna um garoto de certa forma melancólico, e certamente louco para fazer parte de uma família. Então, quando ele conhece Marina e o pai dela, vive uma aventura e desvenda um mistério que ninguém sabia que existia no submundo de Barcelona. Quando passamos pelo clímax do livro, e todos os segredos são desvendados, e o misterioso cientista e sua fiel esposa enlutada morrem num grande incêndio, destruindo também todas as provas da existência da tragédia enigmática que envolveu os personagens, descobrimos, finalmente, que Marina é real, e que seu grande segredo, que a mantém afastada das pessoas e longe da escola, é que é ela quem está doente, não o pai dela. Então acompanhamos Óscar em suas visitas ao hospital até que, fatalmente, Marina morre, e Óscar passa uma semana desaparecido de Barcelona porque vai ao funeral dela sem contar a ninguém.

O livro termina aí, nos deixando com a sensação de uma tristeza profunda de um amor que poderia ter sido, mas que não aconteceu por uma terrível doença, refletindo a tragédia ocorrida com o casal misterioso: o médico cientista e sua mulher deformada, que visita seu túmulo coberta com um véu.

Entretanto, uma breve reflexão minuciosa nos leva a algumas constatações:

1 – Todos os personagens principais que tiveram conhecimento da existência de Marina ou da terrível história de mistério da viúva e do cientista, com exceção do pai dela, terminam mortos.

2 - O pai de Marina, único a conhecer a verdade sobre a filha, vai embora para nunca mais voltar, e Óscar não o vê mais, o que também nos permite duvidar de sua existência.

3 – Óscar não contou a absolutamente ninguém sobre Marina ou sobre suas aventuras com ela, nem foi questionado, em nenhum momento, pelos padres do internato, sobre suas misteriosas andanças.

4 – Uma cena em particular mostra Óscar sendo atacado no internato, e a criatura atacante deixando as mãos de madeira (próteses) de um dos personagens, sendo deixada no internato, ensanguentadas. No entanto, não há nenhum indício de que a polícia tenha sido acionada, e em nenhum momento posterior o internato entra em contato com o menino para falar sobre o ocorrido, o que levanta suspeitas sobre a realidade do ocorrido também.

5 – Marina e o pai vivem numa casa isolada em um bairro onde só existem casarões abandonados. Não têm energia elétrica por falta de dinheiro, e Óscar encontra a casa vazia várias vezes, quando entra sorrateiramente nela. A maioria dos móveis está sempre coberta por lençóis, e, em algumas ocasiões, há uma camada de pó cobrindo o chão, típico de casas abandonadas. E, ainda que sejam descritos como decadentes, até extremamente pobres, Marina e seu pai ocasionalmente têm dinheiro para comprar croissants, e o pai mantém, em perfeito estado, um carro antigo, que funciona perfeitamente bem, e poderia muito bem ser vendido como relíquia. Eles também têm dinheiro para abastecer o carro e ir à praia, além de pagarem viagens ocasionais para o tratamento do pai (que, mais tarde, sabemos que são tratamentos para Marina).

6 - Quando comparamos a data de nascimento de Zafón com a idade de Óscar e o ano em que se passa o livro, descobrimos que Zafón e Óscar têm a mesma idade, além de compartilharem a mesma cidade natal, Barcelona, o que nos leva a questionar o quanto da juventude real de Zafón pode haver na história.

No fim, fica a dúvida: será que Óscar, que pode ser um alter ego do autor, não inventou toda essa história por ser um menino solitário? Se sim, será que ele inventou apenas a parte mística, e Marina realmente existiu na vida dele? Ou então, por ser um menino tão sozinho, seria toda a história inventada pela imaginação fértil de um escritor preso em um internato? Teria tudo acontecido de verdade, e a história teria se tornado algo que “nunca aconteceu” porque o único a saber dela é Óscar, que nunca a contou a ninguém? Ou será que o próprio Óscar poderia não mais diferenciar a realidade da invenção, já que é tão fácil se lembrar bem do que jamais aconteceu?

A única certeza é de que as histórias de Zafón são incrivelmente belas, trágicas e mágicas, e Marina é, sem dúvida, uma das melhores.

10 de jun. de 2015

OS CACHORROS - RESENHA

Os Cachorros – Antonio Carlos Vilela

Sinopse

A vida tem sido dura com Mauro. O cachorro do vizinho psicopata uiva a noite toda e não o deixa dormir. Ele sente que está prestes a ser demitido e tem uma ideia brilhante para virar o jogo. Pelo menos, isso é o que ele pensa. E se o cachorro sofrer uma morte súbita?

Mas nem sempre as saídas fáceis são as melhores. O destino pode não colaborar com você. Todo crime tem seu castigo?

Os Cachorros é uma história triste que faz sorrir. A capacidade de raciocinar e tomar decisões baseadas em princípios éticos é o que nos diferencia dos animais. Será?

“Os Cachorros” está sempre um passo à frente do leitor, reservando surpresas para todas as páginas.



Considerações

Quem nunca se viu numa situação em que a violência era o caminho mais simples para resolver as coisas? Quem nunca se arrependeu de palavras erradas, de atitudes impensadas, de uma briga desnecessária? “Os Cachorros” é um conto que mostra um caso cotidiano, que poderia acontecer em qualquer cidade, em qualquer bairro, e nos leva a refletir exatamente sobre isso: que atitudes tomamos quando estamos em situações extremas? O que poderíamos ter feito diferente? E mais ainda: quais as consequências de um ato imprudente e impensado?


Não posso falar muito mais pra não estragar a leitura, mas basta dizer que é uma história extremamente recomendada!

26 de mai. de 2015

O Mundo Selvagem - As Aventuras Secretas de Jack London - Livro 01 - RESENHA




Christopher Golden & Tim Lebbon

Sinopse

Mundo Selvagem - Quando decidiu lançar-se nos montes de Yukon, no norte do Canadá, em busca do ouro que mudaria a sua sorte, o jovem Jack London não podia imaginar que estava prestes a passar pelos dias mais terríveis de sua vida. Sua sobrevivência depende de sua capacidade de dominar tanto os demônios internos quanto aqueles que o rodeiam. Aterrorizantes, misteriosas, bizarras e mágicas, assim é O mundo selvagem. O rapaz de dezessete anos que enfrenta bestas sobrenaturais ficaria mais tarde conhecido mundialmente como um dos melhores escritores norte-americanos. Com uma personalidade ilustre como protagonista e um cenário real, os aclamados autores Christopher Golden e Tim Lebbon, em parceria com o ilustrador Greg Ruth, criaram uma história incrível que mistura ação, terror e mistério. O resultado não poderia ser melhor.




Considerações

Este é mais um dos livros que peguei emprestado na biblioteca da cidade sem ter noção de nada sobre ele. Gostei da capa, do nome e da sinopse, então peguei.

Neste livro, acompanhamos as aventuras do jovem Jack London – um personagem baseado no real Jack London, escritor influente que teve uma vida cheia de aventuras, e que aqui se transforma num herói de uma saga cheia de magia, mistério e aventura. Jack parte com seu cunhado para o norte do Canadá em busca de ouro, como muitos outros homens que os acompanham. Logo no início começam as complicações, quando o barco que os leva até a cidade onde a jornada realmente se inicia para no mar, obrigando quem quiser chegar à cidade a passar seus pertences desajeitadamente em barcos até chegarem à cidade.

Ao chegar em Yukon, o cunhado de Jack, já bem mais velho e sofrendo com uma saúde frágil, desiste da viagem, ao perceber que em seu estado a viagem seria praticamente suicida. Jack então é deixado sozinho e, a despeito da pouca idade (acaba de completar 18 anos), tem coragem o bastante para seguir em frente sem se preocupar. Na verdade, a falta de medo (e talvez de prudência) acabam incomodando, fazendo o personagem parecer mais desajuizado do que corajoso.

Seguimos o caminho perigoso com Jack e o vemos fazer amigos com os quais desce terríveis corredeiras e com quem fica preso numa cabana precária em terras geladas, onde quase morre. Neste momento Jack é salvo por um misterioso lobo, que vai acompanhá-lo pelo resto da aventura.

Quando a primavera finalmente chega e o rio descongela, Jack e seus dois amigos podem seguir para a cidade base para os mineradores, onde o imprudente rapaz se envolve numa briga e acaba sendo sequestrado e escravizado após um de seus amigos ser morto. Obrigado a trabalhar para os bandidos em busca de ouro, Jack é salvo pelo lobo novamente, que não apenas o tira das garras dos vilões, como o protege do ataque de uma criatura legendária e canibal: o Wendigo. Fugindo do monstro, Jack acaba resgatado por uma misteriosa menina que aos poucos o seduz, mas que, como em várias outras histórias de sereias e deusas, não quer que ele se vá. Jack então foge, e junto com o lobo atravessa as matas geladas do Canadá correndo da bruxa e de seu pai, Leishii, uma divindade russa das florestas. 

É então que Jack tem seu derradeiro encontro com o Wendigo, e a luta que é travada revela que Jack não dominou o mundo selvagem, como pensou que faria o tempo todo, mas se tornou parte dele, tão feroz quanto qualquer criatura das florestas.

Junto com Jack London mergulhei de cabeça em busca de aventuras nas primeiras páginas, mas confesso que, para um livro tão pequeno, com quase 250 páginas, e ainda por cima ilustrado, eu não esperava experimentar cansaço, mas algumas vezes isso acontece. Isso porque algumas frases que os autores usam são tão repetitivas que aparecem em quase todas as páginas. A expressão “mundo selvagem”, por exemplo, aparece praticamente em todos os parágrafos, e isso cansa bastante. No entanto a leitura é agradável, e principalmente depois que Jack encontra Wendigo pela primeira vez, emocionante. 

Um livro rápido para quem quer uma aventura diferente, que mergulha nas paisagens geladas e trata da magia como parte da natureza. Só queria saber, porém, como classificar uma história com cenas de violência tão intensas como “infanto-juvenil”, pois este livro estava nas prateleiras infantis ao lado de livrinhos cheios de imagens. É por isso que sempre olho naquela parte da biblioteca, porque a classificação dos livros é muito subjetiva…

20 de mai. de 2015

LEGADO VERMELHO - RESENHA



Legado Vermelho – Manuel Alves

Sinopse

Lantis é um jovem brilhante, e uma das pessoas mais inteligentes do mundo. Atly é o seu irmão mais novo, sempre metido no seu mundo de fantasia, constantemente a inventar histórias povoadas de criaturas lendárias. Quando o pai, um conceituado cientista, os leva à Reserva dos Dragões, para estudar fendas sísmicas, Atly descobre algo que ameaçará a existência do próprio planeta.



Considerações

Em poucas páginas, o autor consegue criar uma narrativa interessante em torno de dois irmãos, o superdotado Lantis, que acompanha o pai cientista em seus estudos e experimentos, e o jovem Atly, que não tem a mesma genialidade que Lantis, mas é curioso e tem crenças que contradizem a ciência tradicional. É fácil sentir simpatia pelos garotos, e quando Atly descobre que a lendária espécie dos dragões existe de verdade, e as feras despertam e ameaçam o planeta, os estudos de Lantis e seu pai se mostram a única opção para salvar a existência da raça humana. 

O final deste conto é surpreendente, e deixa o leitor com um gostinho de “quero mais”. Um conto belo com um final surpreendente, que certamente agradará a todos os leitores!